Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

GAZUA

GAZUA

Porque é que as roupas de mulher quase não têm bolsos?

AG, 13.08.20

Quantas mulheres não andaram já pelo seu local de trabalho com o telemóvel, o porta-moedas, o cartão da empresa ou um par de chaves nas mãos, sem ter um sítio prático onde guardá-los? Já para os homens, é fácil: qualquer casaco ou par de calças tem uma coisa maravilhosa, um daqueles elementos de design discretos e geniais: chama-se bolso. E normalmente é grande.

1024px-Mannequin_with_jeans.jpgfoto: Lion Hirth (Prissantenbär) - licença CC BY-SA 3.0

 

Coisas que a fita métrica confirma

Entremos numa loja de roupa. Na secção de homem, praticamente tudo - das calças às camisas e aos casacos - tem pelo menos um bolso. E quando falo de bolso é uma cavidade que permite, de facto, guardar coisas. Se depois formos ver a secção de mulher, o cenário é o oposto. Não só as roupas quase não têm bolsos, como os poucos que há raramente são funcionais: são pequenos, ficam em zonas angulosas que vão deformar os objectos, e às vezes até estão apenas a enfeitar.

Tentem enfiar um smatphone nos bolsos de um par de calças de ganga de mulher (para usar o exemplo duma roupa completamente massificada) e perceberão o que se entende por falta de 'bolsos funcionais'.

O The Pudding publicou em 2018 um estudo que comparava os tamanhos de bolsos de calças de ganga de homem e de mulher para chegar à conclusão que já se esperava, e dar-lhe números: mesmo quando há bolsos, nas calças de mulher estes têm metade do tamanho.

Alguns dirão que as mulheres trazem consigo tanta tralha que precisam sempre de uma carteira. Mas não só isso não é verdade universal (nem todas as mulheres carregam toda a tralha para onde quer que vão), como é apenas uma parte da vida das mulheres. Há muitas situações, como estar durante o dia num escritório ou armazém, em que ter bolsos dava mesmo muito jeito. Porque ninguém se levanta para ir tirar um café ou para ir até uma sala de reuniões levando consigo a carteira.

 

Uma breve história dos bolsos

Tacuinum_Sanitatis-threshing.jpg

Camponeses do século XV - com bolsa à cintura.

De onde vem esta diferença? Como para tudo, há uma história. A história da moda e dos bolsos. Há vários artigos online que explicam como, através dos tempos, a roupa masculina e feminina não teve, passou a ter, e finalmente deixou (ou não) de ter bolsos. O site do Victoria and Albert tem uma página com ilustrações que mostram como eram os bolsos de outros séculos - e vale a pena ler para descobrirmos também o que era guardado nesses bolsos.

Um resumo breve (podem ler uma história mais completa e ilustrada por exemplo neste artigo da Verve): na época medieval, homens e mulheres usavam bolsas que prendiam à cintura para guardar alguns objectos importantes. As bolsas ficavam por dentro da roupa, e esta tinha fendas que permitiam aceder-lhes. No século XVII surge uma inovação: em vez de bolsas separadas, passaram a usar-se bolsas cosidas nas próprias peças de roupa. E assim nasciam os bolsos, para ambos os sexos.

Há quem sugira também que, durante a Revolução Francesa, foram banidos quaisquer bolsos da roupa das mulheres, para que elas não pudessem transportar às escondidas material  perigoso.

No entanto, a evolução da roupa das mulheres, com camadas sempre mais complicadas e de difícil acesso, tornou os bolsos pouco práticos. Mais tarde, quando os vestidos se tornaram mais justos ao corpo, os bolsos eram igualmente um elemento difícil de acondicionar. E assim, a roupa feminina - pelo menos a de uma certa classe - perdeu os bolsos. Surgiram umas carteiras ou bolsas minúsculas, onde não cabia quase nada.

Mas não se tratava apenas de uma limitação imposta pela moda. Isto correspondia também ao papel social das mulheres: não tinham propriedade, não tinham dinheiro, não tinham actividades 'produtivas' a fazer, era suposto estarem o mais possível em casa - para que precisavam de bolsos, de ter e de transportar coisas? Há quem sugira também que, durante a Revolução Francesa, foram banidos quaisquer bolsos da roupa das mulheres, para que elas não pudessem transportar às escondidas material perigoso.

1905-03 delineator 9.jpg

Roupa feminina de inícios do século XX

E assim fomos perdendo os bolsos. No final do século XIX, com o crescimento do movimento sufragista, e durante a I Grande Guerra, quando as mulheres desempenharam trabalho que até então cabia aos homens, agora ausentes na guerra, houve campanhas para devolver às mulheres um vestuário mais funcional (que, claro, incluía bolsos). Mas assim que os homens voltaram da guerra a moda dominante voltou a privilegiar as roupas mais 'femininas', os cortes justos, os tecidos frágeis, o vestuário menos funcional.

 

Uma mão no bolso, outra na enxada: ou como podemos ter esperança

Já as malas ou carteiras parecem ter crescido, em tamanho, na mesma proporção em que os bolsos diminuiram ou desapareceram. Não só as malas como objecto, mas o valor da indústria que vive de as fabricar e vender.

E não, uma coisa não substitui a outra: porque uma mala é uma coisa que atrapalha os movimentos, ocupa pelo menos um braço e é motivo de preocupação constante: pode ser roubada, não há sítio para pousá-la num restaurante, vai sujar-se se ficar no chão, etc.. Costumo dizer que a emancipação das mulheres só será plena quando puderem usar livremente ambas as mãos. E nesta equação não há espaço para malas.

wheelsofchange1.jpeg

Felizmente, já há marcas de roupa que perceberam como algumas mulheres anseiam por ter roupa com bolsos . São cada vez mais e, maravilha!, têm lojas online.

Havemos de chegar lá. A esse dia em que todos poderemos andar de mãos nos bolsos - e as mãos vão caber nos bolsos.

 

3 comentários

Comentar post