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GAZUA

GAZUA

De quem são estes figos? Um calendário para salvar a fruta abandonada do país

AG, 08.09.20

Há quem lhe chame roubar, mas isso são más línguas - isto é, línguas que não sabem apreciar uma boa fruta acabada de colher da árvore. Ou que não querem ter esse trabalho. Já eu, inspirada por uma amiga praticante da mesma arte, chamo-lhe 'salvar a fruta'.

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Portugal (e muitos outros países, imagino) está cheio de árvores de fruta abandonadas. Velhos pomares cujos donos morreram, ou que já não tratam das hortas. Fiadas de marmeleiros que sobraram a delimitar os terrenos, quando estes foram convertidos para uma agricultura mais moderna ou mudaram de proprietário. Figueiras imensas à beira da estrada, oliveiras a enfeitar quintais que agora são relvados, amendoeiras à espera da floração de Fevereiro para animarem os ooohhhhs e aahhhhhs das fotografias de paisagem ou dos retratos do turista fugitivo na natureza.

Podemos fazer um calendário destas árvores, dos seus frutos, e ir colhendo durante todo o ano. E nem sequer é preciso roubar, porque muitas delas estão de facto abandonadas. Também podemos usar como defesa este livro delicioso da Planeta Tangerina, Os figos são para quem passa.

 

Calendário de salvamentos de fruta, para benefício dos cidadãos

O calendário podia ser assim (é um calendário ditado pelas zonas onde habitualmente me desloco, uma espécie de Borda d'Água dos Salvamentos de Fruta pelo centro e sul do país):

Janeiro a Março - tangerinas, tângeras, laranjas, clementinas. O problema destas árvores é que precisam de rega e, portanto, quando são abandonadas rapidamente secam.

Abril - com sorte, algumas nêsperas temporãs. Flor de sabugueiro nas zonas mais quentes (que uso para xarope, mas também dá para chá)

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Flor de sabugueiro a caminho de ser xarope. Faz um refresco de Verão supimpa, com sumo de limão.

Maio - nêsperas. Flor de sabugueiro, nas regiões mais frescas.

Junho - com alguma sorte, alperces ou cerejas. Algumas variedades de figos.

Julho - ainda cerejas e alperces, e já alguma fruta de verão, como pêssegos (que também precisam de rega e também rapidamente acabam por secar) e figos.

Agosto - a loucura! Figos, figos, figos, figos, figos. Já vos disse que gosto muito de figos? Figos e mais figos. Amêndoas e alfarrobas.

Setembro - marmelos, romãs, amêndoas. Alguns dióspiros.

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No ano passado aproveitei os muitos marmelos que apanhei para experiências: doce de marmelo com tomate, beterraba, pimento e abóbora. Todos aprovados.

Outubro - marmelos, romãs, dióspiros. No Algarve, já se apanha alguma azeitona madura.

Novembro - dióspiros, e as primeiras tangerinas ou clementinas, ainda azedas, mas a vontade de comê-las às vezes é mais forte (e as caretas são bonitas). Azeitonas.

Dezembro - citrinos em barda, castanhas, azeitonas.

Este Verão fiquei-me pelos figos, e não foram muitos - comecei tarde, já tinha de adentrar-me pela folhagem à procura, às vezes a disputar com abelhas e vespas um figo a que, tantas vezes, elas tinham chegado primeiro.

Ao lado das figueiras, já se viam marmelos amarelados, ainda cobertos daquela penugem agreste e perfumada, meio selvagem, irresistível. E as romãs, embora verdes, já  pesavam nos ramos. Mas vou esperar mais umas semanas.

 

Pisar o risco e saltar o muro

Não se trata de roubar, a não ser que sejamos fundamentalistas. Recolho fruta que, muito provavelmente, ia acabar por apodrecer no chão (pelo menos a que os pássaros e insectos não comem).

Às vezes, piso o risco. No inverno passado fiquei alojada dois dias numa casa perto de Castelo Branco que tinha um jardim - uma antiga casa de aldeia convertida em turismo de habitação. E no meio do jardim reparei que o chão estava coberto do que me pareciam pequenas ameixas. Mas naquela altura do ano não há ameixas, portanto olhei para cima e percebi: uma oliveira carregada de azeitonas gordíssimas, maduras, todas a caírem e a apodrecerem ali na relva. Fui buscar um saco e colhi talvez um quilo. Deixei muitas mais em cima da árvore. Adocei-as e temperei-as, e eram deliciosas. Ninguém se queixou, até hoje. Se quiserem saber como preparar as azeitonas, recomendo este post do Outras Comidas.

Também já aconteceu, claro, apanhar a fruta dos quintais que pende para a estrada. Mas isso parece-me justo. Quando um dia tiver um quintal, vou aceitar as regras do jogo.

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Uma das minhas avós via com horror o desperdício de qualquer produto de cultivo. E, acima de tudo, das azeitonas. Costumávamos fazer a apanha da azeitona pelos santos, no início de Novembro.

Era uma actividade absurda, economicamente falando. Um dia de trabalho, com oito pessoas (todas da família, mão de obra grátis), mais a despesa dos combustíveis para os 100 ou 200 quilómetros que nos separavam da casa dela - e quando passados alguns dias íamos ao lagar buscar os garrafões, aquilo rendia talvez 30 litros de azeite. Um garrafão para cada um.

Mas lembro-me de um dia, quando alguém disse 'não vale a pena apanhar a azeitona, que não compensa', a minha avó ter levantado uma mão poderosa e indignada e dizer: 'Enquanto eu for viva, não fica azeitona por apanhar!' Era moralmente inadmissível, para ela, criada e vivida num mundo em que as oliveiras eram a riqueza possível e essencial da sobrevivência, qualquer desperdício.

De certa forma, herdei esta obsessão. Já houve anos em que não apanhámos a azeitona, e sinto-me culpada. Quando ando a pé pelos caminhos, ou mesmo de carro, o meu olhar vai enumerando: olha, um olival abandonado... olha, uma laranjeira ao pé dum poço, boa, assim não seca... olha, um campo cheio de amendoeiras perdido nos montes... uma nespereira - daqui a duas semanas já estão boas! E muitas vezes páro, e aquele desperdício aflige-me.

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Mais uma foto de figos. Nunca são demais.

No verão passado, comprei várias vezes figos a um rapaz com ar de toxicodependente, que os vendia à dúzia no Cais do Sodré. Perguntei onde os arranjava - via-se que eram figos sem tratamento, pequenos, de casca fina, dos bons, bem maduros. Disse-me que em Marvila havia centenas de figueiras abandonadas, nos restos de casas e quintais em ruínas ou prestes a serem transformados em condomínios.

Fiquei depois a saber que ele quase tinha levado um tiro ao tentar apanhar os belos figos pretos duma certa figueira - pelo que percebi que nem todas seriam figueiras abandonadas. Mas que os figos eram bons, lá isso eram. E não se estragaram.

 

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