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GAZUA

GAZUA

De quem são estes figos? Um calendário para salvar a fruta abandonada do país

AG, 08.09.20

Há quem lhe chame roubar, mas isso são más línguas - isto é, línguas que não sabem apreciar uma boa fruta acabada de colher da árvore. Ou que não querem ter esse trabalho. Já eu, inspirada por uma amiga praticante da mesma arte, chamo-lhe 'salvar a fruta'.

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Portugal (e muitos outros países, imagino) está cheio de árvores de fruta abandonadas. Velhos pomares cujos donos morreram, ou que já não tratam das hortas. Fiadas de marmeleiros que sobraram a delimitar os terrenos, quando estes foram convertidos para uma agricultura mais moderna ou mudaram de proprietário. Figueiras imensas à beira da estrada, oliveiras a enfeitar quintais que agora são relvados, amendoeiras à espera da floração de Fevereiro para animarem os ooohhhhs e aahhhhhs das fotografias de paisagem ou dos retratos do turista fugitivo na natureza.

Podemos fazer um calendário destas árvores, dos seus frutos, e ir colhendo durante todo o ano. E nem sequer é preciso roubar, porque muitas delas estão de facto abandonadas. Também podemos usar como defesa este livro delicioso da Planeta Tangerina, Os figos são para quem passa.

 

Calendário de salvamentos de fruta, para benefício dos cidadãos

O calendário podia ser assim (é um calendário ditado pelas zonas onde habitualmente me desloco, uma espécie de Borda d'Água dos Salvamentos de Fruta pelo centro e sul do país):

Janeiro a Março - tangerinas, tângeras, laranjas, clementinas. O problema destas árvores é que precisam de rega e, portanto, quando são abandonadas rapidamente secam.

Abril - com sorte, algumas nêsperas temporãs. Flor de sabugueiro nas zonas mais quentes (que uso para xarope, mas também dá para chá)

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Flor de sabugueiro a caminho de ser xarope. Faz um refresco de Verão supimpa, com sumo de limão.

Maio - nêsperas. Flor de sabugueiro, nas regiões mais frescas.

Junho - com alguma sorte, alperces ou cerejas. Algumas variedades de figos.

Julho - ainda cerejas e alperces, e já alguma fruta de verão, como pêssegos (que também precisam de rega e também rapidamente acabam por secar) e figos.

Agosto - a loucura! Figos, figos, figos, figos, figos. Já vos disse que gosto muito de figos? Figos e mais figos. Amêndoas e alfarrobas.

Setembro - marmelos, romãs, amêndoas. Alguns dióspiros.

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No ano passado aproveitei os muitos marmelos que apanhei para experiências: doce de marmelo com tomate, beterraba, pimento e abóbora. Todos aprovados.

Outubro - marmelos, romãs, dióspiros. No Algarve, já se apanha alguma azeitona madura.

Novembro - dióspiros, e as primeiras tangerinas ou clementinas, ainda azedas, mas a vontade de comê-las às vezes é mais forte (e as caretas são bonitas). Azeitonas.

Dezembro - citrinos em barda, castanhas, azeitonas.

Este Verão fiquei-me pelos figos, e não foram muitos - comecei tarde, já tinha de adentrar-me pela folhagem à procura, às vezes a disputar com abelhas e vespas um figo a que, tantas vezes, elas tinham chegado primeiro.

Ao lado das figueiras, já se viam marmelos amarelados, ainda cobertos daquela penugem agreste e perfumada, meio selvagem, irresistível. E as romãs, embora verdes, já  pesavam nos ramos. Mas vou esperar mais umas semanas.

 

Pisar o risco e saltar o muro

Não se trata de roubar, a não ser que sejamos fundamentalistas. Recolho fruta que, muito provavelmente, ia acabar por apodrecer no chão (pelo menos a que os pássaros e insectos não comem).

Às vezes, piso o risco. No inverno passado fiquei alojada dois dias numa casa perto de Castelo Branco que tinha um jardim - uma antiga casa de aldeia convertida em turismo de habitação. E no meio do jardim reparei que o chão estava coberto do que me pareciam pequenas ameixas. Mas naquela altura do ano não há ameixas, portanto olhei para cima e percebi: uma oliveira carregada de azeitonas gordíssimas, maduras, todas a caírem e a apodrecerem ali na relva. Fui buscar um saco e colhi talvez um quilo. Deixei muitas mais em cima da árvore. Adocei-as e temperei-as, e eram deliciosas. Ninguém se queixou, até hoje. Se quiserem saber como preparar as azeitonas, recomendo este post do Outras Comidas.

Também já aconteceu, claro, apanhar a fruta dos quintais que pende para a estrada. Mas isso parece-me justo. Quando um dia tiver um quintal, vou aceitar as regras do jogo.

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Uma das minhas avós via com horror o desperdício de qualquer produto de cultivo. E, acima de tudo, das azeitonas. Costumávamos fazer a apanha da azeitona pelos santos, no início de Novembro.

Era uma actividade absurda, economicamente falando. Um dia de trabalho, com oito pessoas (todas da família, mão de obra grátis), mais a despesa dos combustíveis para os 100 ou 200 quilómetros que nos separavam da casa dela - e quando passados alguns dias íamos ao lagar buscar os garrafões, aquilo rendia talvez 30 litros de azeite. Um garrafão para cada um.

Mas lembro-me de um dia, quando alguém disse 'não vale a pena apanhar a azeitona, que não compensa', a minha avó ter levantado uma mão poderosa e indignada e dizer: 'Enquanto eu for viva, não fica azeitona por apanhar!' Era moralmente inadmissível, para ela, criada e vivida num mundo em que as oliveiras eram a riqueza possível e essencial da sobrevivência, qualquer desperdício.

De certa forma, herdei esta obsessão. Já houve anos em que não apanhámos a azeitona, e sinto-me culpada. Quando ando a pé pelos caminhos, ou mesmo de carro, o meu olhar vai enumerando: olha, um olival abandonado... olha, uma laranjeira ao pé dum poço, boa, assim não seca... olha, um campo cheio de amendoeiras perdido nos montes... uma nespereira - daqui a duas semanas já estão boas! E muitas vezes páro, e aquele desperdício aflige-me.

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Mais uma foto de figos. Nunca são demais.

No verão passado, comprei várias vezes figos a um rapaz com ar de toxicodependente, que os vendia à dúzia no Cais do Sodré. Perguntei onde os arranjava - via-se que eram figos sem tratamento, pequenos, de casca fina, dos bons, bem maduros. Disse-me que em Marvila havia centenas de figueiras abandonadas, nos restos de casas e quintais em ruínas ou prestes a serem transformados em condomínios.

Fiquei depois a saber que ele quase tinha levado um tiro ao tentar apanhar os belos figos pretos duma certa figueira - pelo que percebi que nem todas seriam figueiras abandonadas. Mas que os figos eram bons, lá isso eram. E não se estragaram.

 

Quem tem medo do índio Joe? Sete personagens que aterrorizaram a minha infância

AG, 03.09.20

Ainda hoje, quando falo ao meu irmão do índio Joe ele encolhe-se ligeiramente, com um riso nervoso. Não há medos como os que animaram a nossa infância. Eis a minha selecção pessoal de personagens que me aterrorizaram e que, por isso, merecem o meu carinho.

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Como bónus, uma aparição especial dum tal de Bob que surgiu na minha vida quando eu já tinha idade para não me assustar.

Têm também algum terror de estimação? Deixem nos comentários.

 

 

Joe, o Índio

Vou já despachar o Joe, esperando que, quando terminar de escrever sobre os outros seis, já o tenha esquecido e consiga ir dormir descansada.

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Para já, nos desenhos animados ele era 'Joe, o índio', e não 'o índio Joe'. Não sei como é nos livros. Mas este era um detalhe que nos perturbava um pouco, mostrava que havia ali qualquer coisa retorcida.

Joe, o índio, é o antagonista no livro As Aventuras de Tom Sawyer (1876), de Mark Twain. Que é como quem diz: Joe é o mau da fita. Quando eu era criança a RTP passou a série de animação e é dela que retirei a imagem que ilustra o nosso amigo Joe.

Preciso de dizer alguma coisa sobre a causa do meu medo? Por acaso, até preciso: é que não era só o facto de ele ser mau (desenterrava cadáveres de cemitérios e matava pessoas), nem era só este olhar assustador.

No final da história, quando todos já respiramos de alívio porque o Joe está a ser julgado num tribunal, eis que ele salta pela janela, foge e desaparece. A ideia de que Joe, o índio, continua à solta e pode a qualquer momento voltar e vingar-se de Tom e de Huck é tão aterradora que nem o facto de ele ser mais tarde encontrado morto apazigua o medo.

Quando penso nele, nem me lembro desse final tranquilizador. Penso apenas que fugiu e anda à solta por aí.

 

Imperador Ming

Ming, o Impiedoso. A ideia que tenho desta personagem - do seu papel na história, das cenas em que entrava - é muito vaga. Se me perguntarem quem era Flash Gordon, nem sei bem responder, além de dizer que era uma espécie de herói de ficção científica de acção.

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E creio que a causa é simples: o olhar de Max von Sydow, o actor do filme, obscurece tudo o resto, todas as outras personagens e a trama da narrativa. Aquelas sobrancelhas em forma de pata de aranha, daquelas aranhas grandes e gordas e felpudas. E depois, a roupa. Não deve haver em toda a história do cinema um vilão tenebroso com um guarda-roupa tão extraordinário como o de Ming.

 

A Bruxa da Pequena Sereia

A história da Pequena Sereia contada pela Disney tem muito pouco a ver com a Pequena Sereia original do conto de Hans Christian Andresen. Começamos pelo fim, e ficam já avisados do spoiler: no conto, a Pequena Sereia morre. Ou melhor: volta ao mar e o seu corpo desfaz-se e transforma-se em espuma.

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Quem leu os contos de Andresen (ou quem viu a série de animação Contos de Andersen, nos anos 80) sabe que muitos deles são tristes, pessimistas, não encaixam no formato "e viveram felizes para sempre". São também maravilhosos. Andresen era um grande, grande escritor.

A bruxa que a Pequena Sereia visita é uma criatura asquerosa. A sereia tem de vencer a sua repulsa para ir ter com ela e pedir-lhe uma alma imortal e as pernas que lhe permitirão aproximar-se do príncipe. Eis a descrição do assustador mundo submarino que a sereia tem de atravessar a caminho da casa da bruxa: "Todas as árvores e arbustos eram pólipos - metade animal, metade planta - e pareciam serpentes com centenas de cabeças a nascer da terra; todos os ramos eram braços longos e viscosos, com dedos como vermes que se dobravam".

"Cada passo que deres será como se pisasses uma faca afiada".

E a ajuda que a bruxa lhe oferece é uma lista de tormentos horríveis: se aceitar, a Pequena Sereia nunca poderá voltar para a sua família, ficará sem voz e "cada passo que deres será como se pisasses uma faca afiada". Além de que o amor incondicional do príncipe, esse, não é garantido - e, de facto, não se concretizou, levando à morte da sereia.

A bruxa sabe tudo, e sabe também que a Pequena Sereia vai cometer um terrível erro. Mas dá-lhe a poção que a transforma. E o riso dela mata sapos e outras criaturas em redor. Querem pior do que isto?

 

A Duquesa da Alice no País das Maravilhas

A Rainha de Copas pode ser mais cruel e despótica, mas quem realmente me assusta no livro da Alice é a Duquesa. Recordando brevemente a cena: Alice encontra a Duquesa na cozinha, sentada a cuidar de um bebé, enquanto a sua cozinheira, num acesso de loucura, atira tachos e panelas pelos ares.

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A coisa realmente perturbadora - muito mais que os tachos e panelas a acertar nas pessoas presentes - é que a Duquesa maltrata o bebé, chamando-lhe nomes e sacudindo-o violentamente enquanto lhe canta uma espécie de cantiga de embalar. E depois, quando Alice pega no bebé ao colo, este transforma-se num porco.

Um porco, ainda vá. Mas uma mãe a maltratar assim o próprio filho, era demasiado aterrador.

 

Long John Silver

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A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, é dos meus livros preferidos de sempre. Li-o pela primeira vez numa versão em banda desenhada. Desde esse dia, a figura do pirata Long John Silver assombra-me.

O verdadeiro pirata da perna de pau, com um papagaio como companheiro. Um homem cruel e dissimulado, que se faz passar por amigo para depois tentar matar todos e ficar com o tesouro da ilha. Durante capítulos a fio, ele espera apenas uma oportunidade para atacar, e nunca sabemos quando esse momento chegará.

À conta dessa primeira imagem do pirata, que nunca me deixou, até hoje colecciono edições de A Ilha do Tesouro que tenham, de preferência, ilustrações. É uma espécie de exorcismo do meu medo.

 

 

A viúva Mac'Miche

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Esta é provavelmente a menos conhecida da lista. A viúva Mac'Miche é uma das personagens do livro Um Bom Diabrete, da Condessa de Ségur. É prima de Charlot, o protagonista, um órfão de 13 anos que está a seu cargo e que ela maltrata impiedosamente. Olhando para a imagem da capa desta edição percebem facilmente de onde vinha o meu pavor à criatura.

O livro tem requintes de crueldade, injustiça e bondade lamechas suficientes para inspirar revoluções sociais. Acaba bem para Charlot. A viúva morre e há casamentos e uma herança.

 

Bob, de Twin Peaks

A série Twin Peaks faz parte da minha adolescência, não da minha infância. Mas o terror que algumas personagens e cenas me inspiraram está ao melhor nível dos traumas infantis. Tanto, que a certa altura abandonei a série porque tinha medo de ir sozinha pelo corredor que me levava da sala ao meu quarto, quando terminava o episódio da semana. E a história estava tão enleada que eu já não percebia muito bem quem era quem.

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Bob é uma entidade que vive numa dimensão alternativa. Num processo de possessão demoníaca, controla várias outras personagens e leva-as a cometer crimes, como o homicídio de Laura Palmer. A cena do espelho, em que Bob possui Leland Palmer, é ainda hoje difícil para mim.

E vocês, de quem tinham medo? Deitem cá para fora!

 

 

O Meia-Hora, o Surfista e o Presidiário: uma carta aos picas da minha juventude

AG, 26.08.20

Muitos anos a andar de transportes públicos dão nisto: há pessoas que acabamos por ver todos os dias. Vemo-los crescer, ou engordar, ou envelhecer, ou aparecer, algum dia, com uma criança pela mão. Ou abraçados a outra pessoa que não a do costume. Ou deixam de vestir calças de ganga e t-shirt e passam a ir de fato e gravata.

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Tudo o que sabemos deles está fechado naqueles minutos dentro das carruagens, eventualmente no cais. Que livros lêem, que séries vêem no smartphone? Que hábitos irritantes têm - falam com o telemóvel em alta-voz, põem música, deixam migalhas nos assentos?  Às vezes, a viagem é tempo suficiente para imaginarmos muita coisa das suas vidas, para lá da janela do comboio.

Menos, parece-me, em relação aos revisores, e no entanto eles também estão lá. Há contos ou músicas sobre revisores? Só conheço O Pica do 7, do António Zambujo. Podia haver mais, porque seguramente há muitas histórias ali perdidas nos uniformes. Como em todas as vidas de pessoas cujo trabalho é lidar com outras pessoas - desde passageiros adormecidos ao ponto da hibernação, a adolescentes sem bilhete em fuga, a maluquinhos em monólogos sonoros e intermináveis, a homens e mulheres que de súbito se sentem mal. Nós todos, portanto, em algum momento.

Na minha carreira de passageira houve três revisores que me faziam sempre pensar que vida seria a deles fora do comboio, fora do uniforme. São eles o Meia-Hora, o Surfista e o Presidiário.

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O Meia-Hora era um homem de meia idade baixinho, meio careca, de óculos. Tinha esta alcunha porque parava sempre longamente a falar com alguém. Não com pessoas conhecidas - qualquer bom desconhecido servia. Falava nem sei de quê. Metia conversa, como costuma dizer-se. Fazia perguntas, comentava o tempo, contava uma história que se tivesse passado com ele.

Uma vez encontrou um amigo, que ia muito cansado mas não queria adormecer porque tinha medo de deixar passar a estação de saída. O Meia-Hora tranquilizou-o: 'Dorme à vontade, que quando estivermos a chegar eu acordo-te.' Aquilo foi um gesto bonito: o outro sorriu de alívio e encostou-se para dormir.

O Meia-Hora, então, sentou-se mesmo ao lado da porta de ligação com a carruagem seguinte. E de cada vez que alguém entrava, ele levava a mão aos lábios e dizia: 'Shhhhh! Está ali um bebé a dormir...'. Quando nos aproximámos da estação, acordou o amigo com um grito.

Nesse dia, fui eu a desconhecida seleccionada pelo Meia-Hora. Quando me pediu o passe, ficou a contar a história da vida daquele seu amigo - como se levantava às 4h00 para ir trabalhar, e só voltava às 18h00 e por isso andava sempre com sono, e de como devíamos fazer o que estava ao nosso alcance para ajudar as pessoas, etc..

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O Surfista era ainda novo - na casa dos 20-30 anos. Tinha uma daquelas caras que podiam tê-lo levado a ser modelo: queixo marcado, dentes simétricos e bem desenhados, maçãs do rosto altas, olhos azuis. O cabelo louro, comprido, preso num rabo de cavalo bem puxado. Chamávamos-lhe surfista por causa do cabelo, nada mais. O olhar e a expressão eram suficientemente frios para não o tornar, para mim, atraente, mas via-se que gostava de passear o seu estilo pelas carruagens e devia haver quem apreciasse. Estou certa de que deu matéria para alguma história como a do pica do 7.

O Presidiário era a personagem mais marcante. Não sou capaz de imaginar que idade teria quando o conheci. Era alto, muito magro, ombros encolhidos, um pouco curvado. Tinha uma barba rala e o cabelo escuro, meio ondulado, com risco ao lado, preso num rabo de cavalo flácido na base da nuca. Ao contrário do surfista, que tinha o rabo de cavalo um pouco mais acima, mais esticado e vigoroso.

As mãos do Presidiário eram muito brancas, os dedos ossudos e as unhas longas. Não eram só compridas, no sentido em que ele não as cortava rente: toda a parte da unha era mesmo longa, e era impossível não ficar a olhá-las quando lhe estendíamos o bilhete. Parecia ter ficado congelado nos anos 70: as calças sempre justas nas coxas magras, largas em baixo, a camisa colada ao peito fraco. Se o encontrasse numa rua escura e estivesse sozinha, ter-me-ia encolhido.

Porque lhe chamávamos Presidiário? Bom, corria o boato de que ele tinha estado preso. Isso justificaria o ar sempre carregado (aqui podia ter escrito 'cenho carregado', e ficava bem), o olhar colado ao chão, não dizer nunca uma palavra nem esboçar um sorriso. Mas é provável que isto fosse mesmo apenas um boato. Um detalhe reforçava esta estranheza da sua figura: todos os outros tinham na camisa do uniforme um dístico com o nome e o apelido. Ele, tinha apenas apelido: 'Figueira'. O Presidiário.

Vi o Presidiário no comboio anos a fio (nunca o ouvi), sempre com aquele ar de quem não apanhava sol há décadas. O que faria aquele homem fora do trabalho? Como seria a casa duma criatura assim fechada e pesada, com ar de quem passa fome? Não conseguia imaginar que roupa vestiria sem ser o uniforme cinzento da CP.

Pois esta manhã vi o Presidiário na rua. Vestia uns calções caqui, sandálias e uma camisa com padrão colorido de palmeiras. Ora toma.

Porque é que as roupas de mulher quase não têm bolsos?

AG, 13.08.20

Quantas mulheres não andaram já pelo seu local de trabalho com o telemóvel, o porta-moedas, o cartão da empresa ou um par de chaves nas mãos, sem ter um sítio prático onde guardá-los? Já para os homens, é fácil: qualquer casaco ou par de calças tem uma coisa maravilhosa, um daqueles elementos de design discretos e geniais: chama-se bolso. E normalmente é grande.

1024px-Mannequin_with_jeans.jpgfoto: Lion Hirth (Prissantenbär) - licença CC BY-SA 3.0

 

Coisas que a fita métrica confirma

Entremos numa loja de roupa. Na secção de homem, praticamente tudo - das calças às camisas e aos casacos - tem pelo menos um bolso. E quando falo de bolso é uma cavidade que permite, de facto, guardar coisas. Se depois formos ver a secção de mulher, o cenário é o oposto. Não só as roupas quase não têm bolsos, como os poucos que há raramente são funcionais: são pequenos, ficam em zonas angulosas que vão deformar os objectos, e às vezes até estão apenas a enfeitar.

Tentem enfiar um smatphone nos bolsos de um par de calças de ganga de mulher (para usar o exemplo duma roupa completamente massificada) e perceberão o que se entende por falta de 'bolsos funcionais'.

O The Pudding publicou em 2018 um estudo que comparava os tamanhos de bolsos de calças de ganga de homem e de mulher para chegar à conclusão que já se esperava, e dar-lhe números: mesmo quando há bolsos, nas calças de mulher estes têm metade do tamanho.

Alguns dirão que as mulheres trazem consigo tanta tralha que precisam sempre de uma carteira. Mas não só isso não é verdade universal (nem todas as mulheres carregam toda a tralha para onde quer que vão), como é apenas uma parte da vida das mulheres. Há muitas situações, como estar durante o dia num escritório ou armazém, em que ter bolsos dava mesmo muito jeito. Porque ninguém se levanta para ir tirar um café ou para ir até uma sala de reuniões levando consigo a carteira.

 

Uma breve história dos bolsos

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Camponeses do século XV - com bolsa à cintura.

De onde vem esta diferença? Como para tudo, há uma história. A história da moda e dos bolsos. Há vários artigos online que explicam como, através dos tempos, a roupa masculina e feminina não teve, passou a ter, e finalmente deixou (ou não) de ter bolsos. O site do Victoria and Albert tem uma página com ilustrações que mostram como eram os bolsos de outros séculos - e vale a pena ler para descobrirmos também o que era guardado nesses bolsos.

Um resumo breve (podem ler uma história mais completa e ilustrada por exemplo neste artigo da Verve): na época medieval, homens e mulheres usavam bolsas que prendiam à cintura para guardar alguns objectos importantes. As bolsas ficavam por dentro da roupa, e esta tinha fendas que permitiam aceder-lhes. No século XVII surge uma inovação: em vez de bolsas separadas, passaram a usar-se bolsas cosidas nas próprias peças de roupa. E assim nasciam os bolsos, para ambos os sexos.

Há quem sugira também que, durante a Revolução Francesa, foram banidos quaisquer bolsos da roupa das mulheres, para que elas não pudessem transportar às escondidas material  perigoso.

No entanto, a evolução da roupa das mulheres, com camadas sempre mais complicadas e de difícil acesso, tornou os bolsos pouco práticos. Mais tarde, quando os vestidos se tornaram mais justos ao corpo, os bolsos eram igualmente um elemento difícil de acondicionar. E assim, a roupa feminina - pelo menos a de uma certa classe - perdeu os bolsos. Surgiram umas carteiras ou bolsas minúsculas, onde não cabia quase nada.

Mas não se tratava apenas de uma limitação imposta pela moda. Isto correspondia também ao papel social das mulheres: não tinham propriedade, não tinham dinheiro, não tinham actividades 'produtivas' a fazer, era suposto estarem o mais possível em casa - para que precisavam de bolsos, de ter e de transportar coisas? Há quem sugira também que, durante a Revolução Francesa, foram banidos quaisquer bolsos da roupa das mulheres, para que elas não pudessem transportar às escondidas material perigoso.

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Roupa feminina de inícios do século XX

E assim fomos perdendo os bolsos. No final do século XIX, com o crescimento do movimento sufragista, e durante a I Grande Guerra, quando as mulheres desempenharam trabalho que até então cabia aos homens, agora ausentes na guerra, houve campanhas para devolver às mulheres um vestuário mais funcional (que, claro, incluía bolsos). Mas assim que os homens voltaram da guerra a moda dominante voltou a privilegiar as roupas mais 'femininas', os cortes justos, os tecidos frágeis, o vestuário menos funcional.

 

Uma mão no bolso, outra na enxada: ou como podemos ter esperança

Já as malas ou carteiras parecem ter crescido, em tamanho, na mesma proporção em que os bolsos diminuiram ou desapareceram. Não só as malas como objecto, mas o valor da indústria que vive de as fabricar e vender.

E não, uma coisa não substitui a outra: porque uma mala é uma coisa que atrapalha os movimentos, ocupa pelo menos um braço e é motivo de preocupação constante: pode ser roubada, não há sítio para pousá-la num restaurante, vai sujar-se se ficar no chão, etc.. Costumo dizer que a emancipação das mulheres só será plena quando puderem usar livremente ambas as mãos. E nesta equação não há espaço para malas.

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Felizmente, já há marcas de roupa que perceberam como algumas mulheres anseiam por ter roupa com bolsos . São cada vez mais e, maravilha!, têm lojas online.

Havemos de chegar lá. A esse dia em que todos poderemos andar de mãos nos bolsos - e as mãos vão caber nos bolsos.

 

Tem calma, Zé Carlos: é só uma máquina a falar contigo

AG, 04.08.20

Os chatbots vieram para ficar. Mas este ficar, às vezes, é como o daquelas visitas irritantes de que não conseguimos livrar-nos, mesmo que as tratemos mal. O que vale é que tudo isto pode servir, pelo menos, para nos rirmos.

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Imagem: James Royal-Lawson, licença CC By-SA 2.0

Mim, Tarzan. Tu, chatbot

Há dias entrei no site duma grande empresa portuguesa. Precisava de esclarecer uma dúvida. O menu não me ajudava a encontrar o caminho, a pesquisa não dava resultados relevantes. Foi então que decidi experimentar a janela de chat que estava a piscar-me o olho desde o início da visita.

Os chatbots são cada vez mais usados pelas empresas nas situações em que a interacção com os clientes tem algum grau de previsibilidade. Alguns têm dado provas da sua eficácia a resolver tarefas simples (comprar uns ténis, reservar uma viagem, saber as cotações da bolsa). Além disso, têm disponibilidade horária total e são uma alternativa para aquelas pessoas que preferem não ter de falar com... outras pessoas. Mas nem sempre corre bem.

Escrevi a minha pergunta. O chatbot não percebeu e propôs-me dois ou três temas que não tinham a ver com o que eu queria saber. Fiz a mesma pergunta, escolhendo outras palavras e usando uma frase mais básica. O chatbot voltou a não perceber, e insistiu nas opções que já me tinha mostrado e que eu tinha ignorado.

Suspirei, parei a pensar, e tentei de novo ('mas que língua fala este bicho?') -  agora numa lógica de palavras-chave em vez de frases com sintaxe. ‘Computer says no’, como no sketch do Little Britain. O chatbot insistiu em apresentar-me o menu que tinha para me oferecer desde o início. Desisti de ser uma pessoa adulta e tecnologicamente sofisticada. Escrevi: ‘Este chatbot é burro e irritante!’. Ele voltou a não perceber e mostrou-me... as mesma duas ou três opções iniciais.

Não foi a primeira vez que tive uma interacção frustrante com um destes sistemas. Lembrei-me de alguns vídeos hilariantes em que pessoas tentam, em vão, comunicar com a Alexa ou com a Siri, que ou não percebe as palavras, ou o sotaque, ou qualquer outra coisa.

Poucas coisas parecem tão ridículas como uma tecnologia de ponta a dar um grande trambolhão.

E como já vi a infância e adolescência de algumas das tecnologias que agora estão em fase madura, percebo que a inteligência que alimenta estes chatbots está ainda a dar os primeiros passos, e isso gera grandes frustrações. Quanto mais avançada nos parece uma tecnologia (alguém se lembra do que era o WAP?), mais desapontados e irritados ficamos com as muitas lacunas que ela tem até atingir aquele estado em que se torna uma segunda pele e em que as falhas são episódicas.

Conseguir que uma máquina converse connosco, nos compreenda e responda de forma adequada é um feito admirável, mas há-de passar-se algum tempo até que funcione sem tropeções. As nuances do discurso, o humor, a ironia, são territórios obscuros, até para os humanos. A sensação com que ficamos, por vezes, é a de que estamos a almoçar nos Tempos Modernos do Chaplin.

Há casos que ficam para a história dos grandes estatelanços tecnológicos na área da inteligência artificial e especificamente destes chatbots. Por exemplo, o de Tay, da Microsoft. Tay aprendia conversando com humanos: foi criado para interagir com os utilizadores mais jovens no Twitter, em 2016. Em menos de um dia, a partir daquilo que aprendeu, Tay começou a publicar mensagens racistas e a negar o holocausto. E a empresa fê-lo desaparecer.

Coitadinhos, eles não sabem o que dizem...

Mas além das irritações de ‘para que é que inventaram isto, se esta porcaria não funciona e só faz perder tempo?’ e de alguns desastres como o de Tay, há episódios com os quais podemos divertir-nos. Vários sites têm compilado diálogos homem-máquina que merecem o nosso carinho (pesquisem 'chatbot fails' ou 'funny chatbot fails').

Desde Poncho, o bot meteorológico que conhecia os dias da semana mas não conseguiu computar o que era o 'fim de semana'.

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Até conversas de surdos, muito parecidas com as que temos com algumas pessoas.

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Até algumas dificuldades em acompanhar os caminhos que um diálogo pode tomar. Ou, como num dos programas do Herman: "Disponha." "Ponha, já disse."

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É aproveitar enquanto dura. Já há empresas a investirem em inteligência emocional artificial e os bots têm todo o tempo do mundo e um universo fabuloso de dados disponível para aprenderem. Até que cheguemos a essa fase, nada como aquele saborzinho a alívio e vingança que sentimos por acharmos que ainda somos mais espertos do que as máquinas.

Não, Einstein não disse isso: 9 citações erradas que todos conhecemos (mais uma para o caminho)

AG, 28.07.20

Uma frase inspiradora por dia, nem sabe o bem que lhe fazia: excepto quando essa frase não é, afinal, daquela pessoa que todos admiramos.

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Não há como escapar às citações de grandes personalidades que todos os dias aparecem nos feeds das redes sociais. Se estiverem numa imagem com a cara da pessoa que alegadamente disse aquela frase, como os santinhos das orações, mais ainda. E o impulso de partilhar, se nos identificarmos com o que é dito, é quase irresistível. 

Acontece que raramente nos damos ao trabalho de verificar se aquela pessoa, de facto, disse aquela frase. Confiamos, mesmo sem sabermos de onde vem. E isto não é novo: há muitas citações famosas que já eram mal atribuídas muito antes das redes sociais e da internet. 

De todas as personalidades a quem são atribuídas as mais variadas grandes frases, há duas vítimas clássicas que parecem ter dito tudo e um par de botas: Einstein e Mandela. É fácil darmos atenção a qualquer coisa que tenha sido dita por um génio ou por alguém de enorme estatura moral. E, como veremos adiante, nem sempre isso é inofensivo.

 

Para já, a lista: 9 citações mal atribuídas

 

1 - “A diferença entre a estupidez e o génio é que o génio tem limites”  – Albert Einstein

Einstein inaugura a nossa lista. A frase já foi localizada em textos franceses do século XIX e, em inglês, também antes de Einstein

 

2 - “A nossa maior glória não é nunca cairmos, mas erguermo-nos de cada vez que caímos”  – Nelson Mandela

Mandela disse esta frase, como nós dizemos tantas vezes ‘tudo vale a pena se a alma não é pequena’, sem nos darmos ao trabalho de referir que estamos a citar Fernando Pessoa. Mas a frase não é dele: está escrita pelo menos desde o século XVIII (podem ver a longa história da expressão nesta página), sendo atribuída, num livro, a um viajante chinês.

 

3 -"Se fui capaz de ver mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes"  – Isaac Newton

Esta frase célebre, que muitos atribuem a Newton, não é uma expressão original do cientista. Newton usou-a numa carta, mas ela já tinha sido usada no século XII pelo teólogo John de Salisbury. E, quem sabe, por alguém antes dele. Mais aqui.

 

4 - “Se nao têm pão, comam brioche!”  – Maria Antonieta

Fiquei muito desapontada quando soube que a rainha francesa, afinal, não disse esta frase nos dias agitados da Revolução Francesa. Rousseau fala, nas suas Confissões, duma rainha que se saiu com um ‘Comam brioche!”. Só que esse livro foi escrito anos antes da revolução francesa.

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5 - “Podemos enganar toda a gente em alguns momentos e algumas pessoas em todos os momentos, mas não é possível enganar toda a gente em todos os momentos”  – Abraham Lincoln

Lincoln também é, como seria de esperar, um íman de falsas citações. Esta espécie de adágio popular, no entanto, já existia por escrito, numa forma bastante semelhante, no século XVII, e foi incluído na Enciclopédia de Diderot e D’Alembert de 1754. Pode até ser que Lincoln tenha dito a frase, mas não é uma criação sua.

 

6 - “O génio é 1% de inspiração e 99% de transpiração”  – Thomas Edison

Pois é, já vimos esta frase atribuída se calhar a uma dúzia de pessoas diferentes. Quem não gostaria de ter-se lembrado de uma coisa tão inteligente  – de preferência, sem grande esforço?

Um dos candidatos a autor desta frase é Thomas Edison. Aparentemente, a ideia já circulava antes dele, já tinha sido enunciada de várias formas, e Edison apenas acrescentou os números. Uma explicação mais elaborada, com todas as fontes, nesta página.

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7- “Não concordo com o que diz, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”  – Voltaire

Não há nenhum registo escrito do filósofo francês com esta frase, que tão bem encaixa no espírito das suas ideias. A frase aparece numa biografia de Voltaire escrita por Evelyn Beatrice Hall e publicada em 1904. A autora não afirma, sequer, que a frase é de Voltaire - usa-a como síntese da sua forma de pensar.

 

8 - “A morte de uma pessoa é uma catástrofe. A morte de milhões é uma estatística”  – Josef Estaline

Calhava bem que alguém com os pergaminhos dizimadores de Estaline fosse autor desta frase. Mas o líder soviético afinal não a disse. A frase é dum livro satírico do alemão Kurt Tucholsky, de 1923.

 

9 - “Elementar, meu caro Watson”  – Sherlock Holmes/ Conan Doyle

Se, como eu, são fãs dos livros de Sherlock Holmes, esta é dura de aceitar. A frase não aparece em nenhum dos livros de Holmes, embora haja expressões próximas  – como ‘meu caro Watson’. Mas desta forma exacta, aparece apenas no livro Psmith Journalist, de Wodehouse, um admirador de Conan Doyle. O livro está disponível no Gutenberg.

 

Mas qual é o mal? Se as frases são boas...

De algumas destas confusões pode não vir mal ao mundo. Até porque muitos dos que originalmente as disseram não estão cá para queixar-se. Mas há manipulações deliberadas: atribuem-se frases a personalidades que, pelo seu perfil, inspiram confiança às pessoas.

E aí somos todos humanos: se uma personalidade poderosa ou inteligente diz uma coisa com que eu concordo, sinto-me legitimado nas minhas opiniões. Sinto-me, por contágio, uma pessoa inteligente, e sinto que tenho razão (que é, como sabemos dos debates online, uma convicção por vezes perigosa).

Um exemplo: há meses circulou um meme com o retrato do ex-presidente da República, general Ramalho Eanes. O texto dizia o seguinte:

 

"A desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, estupidez, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o país. É esse o nosso problema".

 

O contexto era ideal: dum lado, um país a braços com escândalos de corrupção e com o sentimento de que os criminosos ficam impunes, além de outras insatisfações. Do outro, alguém como Eanes (que manteve sempre a reputação de figura honesta e já se afastou do poder há tempo suficiente para quase ninguém estar zangado com ele) apela à desobediência.

É como dar a bênção, não só à justeza do descontentamento, mas também à legitimidade de desobedecer (e não estou a defender ou a demarcar-me desta visão do problema - podia ser qualquer outra frase). Se até o Eanes o diz...

É claro, a citação é falsa, como o Polígrafo mostrou  – e não há mesmo dúvidas, porque o livro de onde ela foi tirada está identificado.

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Não parecia de todo o tipo de coisa que Eanes, um militar, dissesse em público  – e muito menos deixasse escrito. Mas sabe-nos bem ter alguém que respeitamos a pôr em palavras (bonitas, ainda por cima) o que no fundo já pensávamos, e o espírito crítico desaparece antes de acabarmos de ler a primeira linha. Eanes provavelmente também não gostou de que usassem a sua imagem para isto.

Quem quer que criou este meme sabe bem como funciona a manipulação. E os casos visíveis deste fenómeno são cada vez mais, e correm cada vez mais depressa.

Seja qual for a frase, qualquer que seja o seu impacto, a higiene dos factos é sempre um excelente princípio

Haverá quem encolha os ombros, mesmo sabendo que as citações estão erradas, porque entendem que ‘dizem a verdade' e isso é que interessa.

O grande perigo não está naquelas, relativamente inócuas, mas em outras, como a de Eanes, talvez partilhadas com o mesmo encolher de ombros, e que ampliam cada vez mais manipulações políticas.

Seja qual for a frase, qualquer que seja o seu impacto, a higiene dos factos é sempre um excelente princípio, seja para citações, seja para outros materiais. E não havendo certezas, mais vale não partilhar.

 

E como é que sabemos se a citação é autêntica?

A má notícia é: dá trabalho. Sempre que encontramos uma frase que nos faz dizer ‘Ah, é isto mesmo! Vou enviar aos meus amigos’ ou 'Na mouche!' ou 'Ora aqui está uma grande verdade!'  – é bom desconfiarmos. De nós mesmos, antes de mais.

Por vezes, uma pesquisa simples, sempre com a comparação de várias fontes, e que estas por sua vez indiquem onde fizeram a verificação, permite perceber se a citação é legítima. 

Pesquisar online o texto da frase, seguido do nome do autor e de ‘fake quote’ ou ‘falso’, ou outra expressão que o motor de busca entenda, é um caminho.

Há também sites especializados neste tema, como os impressionantes Quote Investigator e The Phrase Finder.

O Polígrafo tem também feito algum trabalho de verificação a propósito de citações bombásticas, recentes, atribuídas a políticos  – e aceitam discos pedidos; é questão de lhes propormos uma citação.

 

Que horas são? Hora da carrinha da mercearia

AG, 20.07.20

Quem se lembra da música das carrinhas amarelas da Family Frost? Havia até um toque de telemóvel com esse "jingle". Há anos que não as vejo, e suponho que já não existem. Mas o que continua a resistir, sempre e teimosamente, são os merceeiros ambulantes.

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E se de repente, no meio do silêncio e da modorra duma aldeia, alguém tocar uma buzina, isso é a carrinha das mercearias. Ou do pão, ou do peixe, ou da roupa. As opções são várias, mas o formato não muda muito.

Ninguém vai lembrar-se de chamar-lhes empreendedores - essa palavra que normalmente vem barrada e embrulhada numa película sexy e luzidia de tecnologia. Mas é isso que são. Pessoas que perceberam que, à medida que as pequenas lojas e tabernas de aldeia fechavam, abria-se ali uma oportunidade.

As lojas foram fechando por falta de clientes, por dificuldades dos donos em gerir deslocações e fornecimentos, ou outros motivos que não sei adivinhar. E os poucos habitantes das aldeias não podem ir à loja. Ou porque não há loja. Ou porque para ir à cidade mais próxima é preciso carro. Ou, se tiverem a sorte de até ter transportes públicos, nem que seja uma vez ao dia, é preciso além disso saúde para carregar com o peso das compras.

Se o cliente não vai à loja, a loja vai às aldeias.

Não é um sistema muito diferente dos almocreves de outros tempos, ou de qualquer dos vendedores ambulantes que percorriam o país até há poucas décadas. Mas por isso mesmo - por esta capacidade de ver que para andar para a frente se calhar tinham de voltar atrás - é que admiro a capacidade de adaptação destas pessoas.

E depois, fico maravilhada com as carrinhas: são miniaturas de supermercado, com tudo meticulosamente arrumado, sem uma folga. Estou sempre atenta às buzinas e não perco uma oportunidade de apreciar a decoração de interiores destas pequenas mercearias ambulantes.

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Há meses estive à conversa com o Diogo, um vendedor que ainda não tem 40 anos e viaja numa carrinha de mercearias há uns cinco. Reparei que no chão da carrinha, no lugar do morto, está uma balança eletrónica ligada a um computador, que lhe permite ir registando os pesos das batatas e da fruta e fazendo logo as contas. Não é bem uma startup, mas resolve o problema de forma eficaz (mais do que algumas startups).

Penso muitas vezes nas reportagens fantásticas que poderiam fazer-se com estas pessoas. Sobre elas e, através delas, sobre os lugares que vão ficando cada vez mais longínquos no mapa. Não porque a geografia mude, mas porque o que torna um lugar habitável para o dia-a-dia - que são também as pequenas lojas, serviços básicos, etc. - fica cada vez mais longe.

Pão afogado em unto de sardinha. Ou, se preferirem, bruschetta de Omega-3

Sardinhas a escorrer gordura, pão de trigo, salada de tomate e pimento assado. Não compliquem.

AG, 17.07.20

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Imagem: Hugo Cuesta, licença CC BY-SA 3.0

O meu método para comer sardinhas é este: ponho a salada no prato; ao lado, uma fatia de pão de trigo, daqueles de que podemos orgulhar-nos, resistentes a todos os ataques. Tiro uma sardinha da travessa - se possível, que esteja bem molhada em gordura - e ponho-a sobre a fatia de pão. Como. Repito o número de vezes necessárias.

No final, o pão vai estar bem impregnado do unto das sardinhas, por cima, e do molho da salada, por baixo. Está muito abaixo do patamar admissível para uma foto no Instagram. Tem, vá, um ar de coisa suja. Está no ponto.

Há comidas que não resistem à linguagem e à estética actuais - seja a fotográfica, seja a textual. Em inglês, a culinária usa e abusa de adjectivos que são inúteis para a felicidade que se consegue com esta fatia de pão. Quando acabo de ler a receita, já estou empanturrada de adjectivos e advérbios e já tudo me parece igual.

Daí o meu título. Eu podia chamar a isto uma bruschetta, e parecia logo muito melhor. Mas a fotografia (que não vou usar) ia denunciar-me. O Omega-3 é só para disfarçar (embora esteja de facto lá), para marcar presença nos clichés das comidas saudáveis.

Hoje, enquanto terminava as minhas sardinhas e ia medindo o degradé cada vez mais suspeito do pão, pensei nisto: um dos meus pratos preferidos, nesta fase em que os sabores se condensam na fatia de pão besuntada, como um borrão de matéria orgânica, não resiste a uma fotografia. É arte efémera.

Da salada tenho a dizer: que a das sardinhas não leva salface, nem pepino. Tomate e pimento assado, só assim, é toda uma receita. Podemos, claro, acrescentar o que entendermos - cada um manda na sua cozinha e assim é que deve ser.

Mas tal como o leite creme não leva iogurte - ou então é outra coisa, e pode perfeitamente ser outra coisa e ter outro nome, e viva a imaginação - a salada que acompanha as sardinhas assadas só precisa de levar tomate e pimento assado. Em certas zonas do Algarve, é temperada com alhos assados também na grelha e depois laminados. O que torna a bruschetta de Omega-3 ainda mais saudável, porque o alho tem não sei o quê.

Ainda os calhaus: quem adivinha o que está nesta imagem?

AG, 16.07.20

Continuando o tema do meu post anterior sobre pedras, rochas e geologia, aproveito para deixar aqui uma imagem dum passeio geológico que fiz há poucos dias na zona do Cabo de São Vicente.

Conseguem adivinhar o que são aquelas marcas circulares na pedra, que aparecem sobretudo do lado direito? A resposta vem a seguir à imagem, mas não façam logo batota...

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Estes fósseis - já digo de quê - estão bem visíveis numa grande pedra na praia da Mareta.

Antes, tínhamos visto na parede da falésia duma outra praia pequenas incrustações de carvão - vestígios fósseis de árvores com uns valentes milhões de anos (acho que eram 160... como dizia o outro, é fazer a conta, e o geólogo que explicou tudo tão bem que me perdoe o esquecimento). Quem olha para estes pontos negros na rocha clara vai achar que são caganitas de pássaro. O passeio incluíu ainda uma explicação entusiasmada duma coisa bonita que dá pelo terrível nome de 'discordância angular',  na zona do Telheiro.

Se estiverem interessados, vai haver mais um passeio destes em Agosto. Termina na praia, o que quer dizer que pode perfeitamente acabar num mergulho refrescante. Informações aqui.

E agora a resposta: aquelas marcas circulares são corais fossilizados.

Como comecei a gostar de calhaus (e dicas para as viagens que podemos fazer com eles)

AG, 13.07.20

Eu hei-de amar uma pedra, diz a canção. Não uma, mas muitas, acrescento eu. As pedras contam algumas das histórias mais antigas e extraordinárias do mundo. E se contam histórias, como não gostar delas? 

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Serra da Gardunha

A propósito do reconhecimento da Estrela como geoparque, pela UNESCO, lembrei-me da forma como as pedras e formações rochosas passaram a fazer parte das minhas viagens.

Deixo hoje aqui ideias e ligações úteis para quem quer conhecer alguns dos belos calhaus que fazem a nossa paisagem.

Da geologia, poucos sabemos mais do que aquilo que aprendemos nas aulas de Ciências da Natureza: a deriva dos continentes, os vulcões, os tipos de rocha... Com sorte, o suficiente para percebermos porque é que na Praia Grande, por exemplo, as pegadas dos dinossauros estão numa parede impressionante de rocha que é agora vertical.

14524346_10210387264067321_237911357043220820_o-prPraia Grande, Sintra

Nesta história, ficamos perdidos porque a escala do tempo é inalcançável, escapa à nossa capacidade de processamento. Quando me dizem que uma rocha tem 5 milhões de anos, podiam dizer 50, que eu entendia o mesmo.

‘Como é ameaçadora, por contraste, a noção de uma imensidade quase inconcebível, em que a presença humana está restrita a um milimicrossegundo mesmo no final!” - Stephen Jay Gould

Stephen Jay Gould explica como a noção deste tempo que se estende para o passado e para o futuro, sem princípio ou fim à vista, surgiu e afectou profundamente a nossa visão do mundo - tal como a descoberta de que a Terra não era o centro do Universo, por exemplo. Em Time’s Arrow, Time’s Cycle, escreve: ‘Como é ameaçadora, por contraste, a noção de uma imensidade quase inconcebível, em que a presença humana está restrita a um milimicrossegundo mesmo no final!”

É assustador, sim, mas é fascinante e libertador. E ter na mão um fóssil, que já foi vivo e agora é pedra, e que nos chega desses tempos demasiado distantes, é como ver passar um cometa. Somos visitados por uma criatura de outro mundo.

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Fósseis tirados das paredes derrubadas duma casa velha do Pragal

Para mim, o interesse pelos calhaus voltou, para ficar, com os passeios do Ciência Viva no Verão, há uns dez anos. Não apenas o interesse pelas pedras bonitas que encontramos na praia ou num passeio pelo campo, mas pelas grandes rochas, montanhas e bacias que dão forma ao mundo.

Nesses passeios conheci grutas, minas, formações rochosas à beira-mar, dobras torcidas e retorcidas. Ajudaram-me a perceber não só as pedras, mas toda a paisagem. O porquê de ali haver aquelas plantas, aquelas cidades e vilas, aquela estrada, aquelas cores. O porquê de o vinho numa encosta ter um sabor, e cem metros mais abaixo ter outro. 

Mas passemos a coisas mais práticas. Imaginemos que querem ver calhaus, de preferência que vos expliquem o que estão a ver - por onde começar?

 

Algumas sugestões de passeio:

1 - Ciência Viva no Verão

O programa, mesmo sem a pujança de antigamente, continua, e é uma excelente forma de começar. As actividades arrancam já no dia 15 de julho e, até 15 de setembro, há muita geologia para explorar - basta escolher o tema na lista de tags ao fundo desta página.

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2 - Geoparques portugueses

Portugal já tem cinco geoparques reconhecidos pela UNESCO - locais cuja geologia é um testemunho importante da evolução da Terra. Em cada um dos sites pode-se saber o que há para ver e fazer. 

Aqui fica a lista:

 

3 - Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Geológico de Portugal

O site do Roteiro de Minas tem mapas e roteiros para quem quiser fazer-se à estrada. Na página dos Amigos do Roteiro de Minas são anunciados regularmente passeios e outros eventos abertos ao público.

 

4 - Percursos pedestres com pedra à vista

Alguns percursos de pequena rota (aqueles que conseguimos fazer em um dia) levam-nos a sítios com uma geologia interessante. Os folhetos ou páginas de internet desses roteiros dão algumas explicações, se bem que quase sempre numa linguagem demasiado técnica (é por isso que, quando não percebo estes temas, prefiro um passeio guiado por alguém que fale uma linguagem clara e que dê sentido ao que vejo).

São muitos e só conheço alguns; deixo algumas sugestões de sítios que não fazem parte dos geoparques que referi acima. Se conhecem outros de que gostam, deixem as sugestões nos comentários.

20190224_155802-carrapateira2.jpgPraia da Carrapateira, Algarve

5 - Geossítios

O site Natural.pt lista um grande número dos chamados geossítios - pontos de interesse geológico. Não tem muita informação sobre cada um deles, pelo menos em formato para leigos, mas é um bom ponto para começar a explorar - às vezes, temos locais destes ao pé da porta e nem sabemos.

 

6 - Geo Walks&Talks - Geoturismo no Algarve

Vá, estou a promover as actividades duma empresa privada - mas porque é a única que conheço que se especializou em fazer percursos dedicados exclusivamente à geologia. Não só isso, mas o Francisco e o Hélder são de factos muito bons a contar as histórias dos sítios (e dos bichos - como o fóssil  da ‘super salamandra algarvia’). Se forem ao Algarve, aproveitem.

 

7 - Geomonumentos de Lisboa

E termino com Lisboa: há dois anos encontrei, para os lados de Marvila, uma escarpa curiosa ao pé da qual havia um painel sobre a rota dos geomonumentos da cidade. Podem saber quais os pontos de interesse dessa rota neste mapa.

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A Wikipédia tem uma lista de geomonumentos de Portugal que é mesmo só uma lista mas, de novo, pode ser um bom ponto de partida.

 

Leituras sugeridas

Não vou sugerir livros sobre geologia, mas alguns livros de geografia e de viagens que, de uma forma ou de outra, falam sobre a paisagem, a forma como a geologia a definiu, como os seres humanos se instalaram nela.

20200103_123809-ursa.jpgPraia da Ursa, Sintra

Acabei há dias o último da lista, de Duarte Belo, edição do Museu da Paisagem, que é sobre uma caminhada de mais de 500 km, feita em 15 dias, entre Freixo de Espada à Cinta e o Cabo da Roca, percorrendo os cumes da linha montanhosa que divide o Portugal atlântico, a norte, do mediterrânico, a sul. 

Outras sugestões de leitura? Deixem nos comentários.